A dor como companhia

Ao sentir a brisa fria de outono uma sombra se forma nas camadas mais profundas do meu pensamento.  A dor como uma doce e eterna companhia, como diria Fernando Pessoa. Senti-la há 25 anos é uma experiência que eu a descreveria como sendo feita de aço e de flores. A queda poderia então ser chamada de mergulho existencial. Penso que sou feita de aço e de flores.vintage

Há muito tempo isso acontece. Os pensamentos formam um emaranhado de incertezas e esperanças. Mas flashes de lembranças me ocorrem quando lembro de um voo com escala para Belém do Pará, com destino a Brasília. Essa é uma história que pode ser linear ou não.

E tudo começou quando senti uma dor atravessando o meu ventre quando eu tinha 12 anos. Era Copa do mundo de 1991, São Luís- MA. A rua 04, Quadra I, Casa 21, Jardim Bela Vista, estava toda enfeitada com bandeirinhas em verde e amarelo. Essa época coincidiu com as festas de São João.  Lembro-me até de um bonequinho, o Amarelinho, que ganhei num sorteio. No dia anterior à final da Copa, manhã família e eu havíamos feito um bolo com cobertura de chocolate e frutas, maçãs, uvas, abacaxi. Como no dia a dia de qualquer criança, que levanta-se com ansiedade por causa de guloseimas, fui à sala de jantar para tomar o café da manhã. Só de sentir o cheiro do café com bolo, vomitei. Passei três dias vomitando, antes de chegar a segunda-feira para ir à emergência do Hospital São Domingos.

Esse dia foi cheio de dúvidas e ansiedades. O que será que desencadearam as crises de dor, febre e vômito? Tiraram uma amostra de sangue para análise, o quadro infeccioso estava com uma taxa altíssima, e só em razão disso o diretor do hospital quis me operar de apendicite. Minha mãe me levara ao hospital naquela manhã quente e ensolarada de junho. Aflita, telefonou para o meu pai, que trabalhava como gerente administrativo na empresa aérea Transbrasil. Ele orientou minha mãe a telefonar pra o meu tio Francisco José, que é médico. Não havia outra saída a não ser vir até Brasília pra investigação e fechamento de diagnóstico. Ela não sabia que aquele seria o início da jornada. E até hoje ao me lembrar disso, meus olhos cintilam ávidos por respostas.

O que aconteceu depois? Esse é um assunto para outra história.

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