A contadora de Historias

O vento soprava do Norte. Hannah ia arrastado seus pés com dificuldade, à medida que o vento soprava. Isso fazia dela uma andarilha.

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Uma andarilha sempre carrega consigo uma mala, linhas, agulhas, pedaços de pano, uma garrafa d’água, sonhos e muitas histórias dentro da mala.

Uma aura de mistério sempre encobre os contadores de histórias. E assim Hannah Kitai vivia e buscava as histórias que encontrava à medida que viajava por diversos lugares. Ela encontrava muitas pessoas até então desconhecidas que iam lhe contando suas histórias. Assim ela vivia, percorrendo estradas, lugarejos, parava nas casas de outras pessoas para se alimentar. E ouvia as histórias que de lugar em lugar as pessoas contavam. Podiam ser histórias de amor, de tristezas, alegrias, uniões, separações. Algumas histórias eram longas que pareciam não ter fim, outras bem curtinhas. Com calidez e força imaginativa, ia escrevendo e tecendo muitas histórias que em sua imaginação iam ganhando cor e forma. Ao cair da noite, abria sua mala, jogava a água numa tigela de barro e mergulhava uma por uma as histórias com muito cuidado. Assim, as palavras com bordados coloridos e as escritas com tinta se dissolviam na água. E de manhã, bebia aquela água como se fosse vinho. E assim seguia, de lugar após outro. E um dia, ao cair da tarde, adoeceu. Sua voz foi aos poucos enfraquecendo, e já não sabia o que fazer. E com isso, preocupava-se, pois dia após dia lembrava-se que era preciso narrar para não morrer, pois era disso que ela vivia. De sonhos e histórias. Não somente das histórias que ouvia, mas das histórias de reis e rainhas que lia nos livros mais antigos, lembrava-se de sua infância em que brincava com seus irmãos de aventuras espaciais, ilha do tesouro, viagens pela estrada. Um dia, lembrou-se de algumas palavras que a consolaram: “E no dia daqueles reis o Deus do céu estabelecerá um reino que jamais será arruinado. E o próprio reino não passará a qualquer outro povo. Esmiuçará e porá termo a todos estes reinos, e ele mesmo ficará estabelecido por tempos indefinidos.”* Nesse dia ela restabeleceu-se. Sentia-se, no entanto, muito cansada. Caminhou até um parque muito bonito, com todo tipo de árvore frutíferas, roseiras por todos os lados, uma lagoa onde nadavam os patos. Nele, pousavam várias espécies de pássaros canoros. Desejou ser livre como um deles… E começou a pensar em sua própria história. Um belo dia, resolveu falar. A voz ainda lhe parecia muito fraquinha. Mesmo assim, disse para algumas pessoas (na verdade, ele falava sobre si mesma): “Se eu pudesse te dar um presente, te daria o amor pelo coração dos seres humanos.Te daria o sentimento de todas as belas coisas do mundo. Além do alimento, o teu trabalho. Além do trabalho, a tua ação. E quando, em tempos difíceis, tudo mais faltasse, te daria a capacidade de enxergar além para achar a saída.” Foi quando apareceu um homem que se aproximou. Ele mostrava ser triste e sombrio, e sua voz revelava uma grande dor interior. Interrompendo suas reflexões, disse-lhe: -Matrioshka#, moro longe daqui. Também sou viajante, estive em muitos lugares, de tudo vivi, alegrias, tristezas, muito sofrimento já vi. Conte uma história que reivente meu passado. Pago-lhe com minha amizade que terás eternamente. Hannah Kitai não titubeou: -Por onde você quer que eu comece? -Não precisa ser desde que nasci. E com a mesma calidez e força imaginativa começou a pensar no passado que daria luz ao presente da vida dele. -Era uma vez um homem triste e vazio que mora num lugar distante. Pelas portas de sua casa entrava a luz do sol. Sua mãe era feliz, pois lhe deu à luz. Compartilhar sonhos era o que ele  mais sabia fazer, desde cedo e com perfeição. À medida que Hannah Kitai narrava, sua expressão abria-se. Ele ficou lindo. Ele já não se sentia um homem só, e nesse mesmo momento sentia como se sua própria história ganhasse contornos mais suaves. Hannah Kitai continuava: -Viveu, trabalhou, amou, mas nunca foi amado. Chegou a uma cidade desconhecida, buscando beleza e simplicidade. Finalmente, encontra um parque com flores perfumadíssimas e com os seres espalhando vida por todos os cantos. E esse homem olhava para uma pessoa. Nesse momento, o homem tomado de sentimentos humanos, sentiu uma alegria imensa, não sabendo que os olhos da pessoa que o olhava eram espelhos do seu olhar. Irá a história continuar? O Cosmos sabe… *Referência a Daniel 2:44 #Matryoshka, boneca russa é um brinquedo tradicional da Rússia, constituída por uma série de bonecas, feitas de diversos materiais, que são colocadas umas dentro das outras, da maior (exterior) até a menor (a única que não é oca). A palavra provém do diminutivo do nome próprio Matryona.

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