Eis o texto- Virgilio, o espantalho

Bom, para quem não conhece o Virgílio, esse texto surgiu de uma brincadeira de criança, com uma amiguinha chamada Kiara, em Belo Horizonte. A brincadeira se transformou numa história porque queríamos fazer um teatrinho. Esse sonho ainda não foi possível… mas a história tem um elemento mágico, porque há nela a minha essência.

Dois anos depois, ao conversar com meu amigo Miguel Martins de Meneses, ele me reacendeu a chama de ainda acreditar que essa história tem um valor imenso. Fez circular entre os amigos, e o sucesso me surpreendeu.

Depois de quatro longos anos, em conversas ao pé do fogão, minha amiga Lene Fernandes inicia as ilustrações.Não faz tanto tempo assim que ela quis se juntar a mim para ver Virgílio circulando entre crianças que sabem o verdadeiro valor da amizade, e entre adultos que ainda acreditam nela.

Os dois desenhos que coloco aqui são da autoria de Miguel Martins de Meneses e Lene Fernandes.

Eis o texto, Virgílio, o espantalho

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Virgílio era um pequeno espantalho, vigiava o milharal de Chico Tripa, o Delegado da pacata cidade Paraíso das Flores. Carla era filha do Delegado, não fazia muitos dias que conhecera o espantalho Virgílio, nomeado por Chico Tripa para ser “vigia de passarinhos”.

Num belo e ensolarado dia, Carla apanhava e comia mangas no quintal, como estava na casa da árvore, viu Virgílio chorando, este estava inconsolável, muito triste mesmo! Desceu da mangueira e foi falar com ele…

-Virgílio, porque você está chorando? – Perguntou Carla.

-Só sirvo pra espantar todo mundo. Buáá!! Quem vai gostar de mim? – Respondeu Virgílio assoitado pelo vento que lhe levava as lágrimas enquanto se agitava rodando.

-Eu!!! Você é o maior legal!

Virgílio ficou feliz da vida e perguntou:

-Quer brincar comigo?

-Obaa!!! Eu quero!

Chico Tripa, porém, passou a proibir Carla de sair para brincar, Carla não entendia, e perguntava: “por que não posso brincar”?

Perguntou para o pai:

-Papai, posso brincar no quintal?

-Não! – Respondeu o Delegado com má cara.

-Porque não?

-Filha, você tem responsabilidades, tem que estudar para se tornar alguém importante. Veja o meu exemplo; estudei muito, hoje sou o Delegado de Paraíso das Flores!- Dizia todo orgulhoso… E isso só confundia a cabeça da menina, pois ela já estudava tanto… Era sempre a melhor aluna da classe.

D. Maricota, mãe de Carla, começou a ficar preocupada com toda essa presepada. Falou com Chico Tripa sobre a filha, que pegasse mais leve, pois ela já fazia tudo direitinho, nas o marido nem ligou. Chico Tripa estava quase dando nó na cabeça com tanta preocupação. A cidade estava com um grande problema: havia um ladrão das plantações de milho. O que ocorria ali? Os ladrões seriam os animais da floresta?

Chico Tripa espalhou vigias de passarinho por toda a cidade. Virgílio era um deles, mas era um espantalho diferente, e não era diferente por ser um espantalho, era nobre nos sentimentos, principalmente um bom amigo de todo mundo.

Carla gostava muito de brincar com o espantalho, brincavam sonhando com diversas aventuras: no fundo do mar, ilha do tesouro, naves espaciais, entre muitas outras…

Chico Tripa só queria que ela estudasse. Ele dizia para Carla:

-Carla, eu não consigo entender por que todos os dias depois do almoço, você some de casa. Para onde você vai? Você esqueceu o que eu te disse? O que está acontecendo?

-Nada, papai.

-Quem nada é peixe! Fale logo, você tem estudado?

-Sim papai, mas depois do estudo vou brincar com Juninho e com Virgílio…

Chico Tripa interrompeu:

-Carla, eu já te disse para não ficar andando por aí sem necessidade…

-Mas pai, eu tenho estudado, me deixa brincar!

O Delegado Chico Tripa tinha tantas coisas para pensar… Acabou nem ouvindo direito o que Carla tinha dito. Ao longe, D. Maricota observava com cuidado todos esses acontecimentos, como era bondosa e compreensiva, foi conversar com a filha.

-Filha, você anda tão tristinha… Eu também fico muito triste. Você quer falar sobre isso?

-Mamãe, gosto de brincar com Juninho, com Virgílio, com o Gabriel e com o Kito… Mas papai não deixa. Você deixa eu ir brincar?

-É claro, filha. Vou conversar com o seu pai sobre isso.

-Eu posso convidar o Juninho?

-Pode, filha, pode ir brincar!

-Yupi! –Carla saltitava de tanta felicidade.

Juninho era um colega da mesma turma na escola. Ele não podia se movimentar sem ajuda, pois era cadeirante. Quando Carla chegou, D. Maria Severina, mãe de Juninho, levou para eles deliciosos brigadeiros. Humm, que gostosura!

Carla falou para o Juninho que brincava com Virgílio na casa da árvore, e por isso, Juninho pediu à mãe para ir à casa de Carla. D. Severina só pediu para que voltassem cedo. Foram então para a casa da árvore.

A casa da árvore era o lugar mais divertido do quintal. Era muito legal brincar ali. Eles comiam mangas, subiam, desciam. Enquanto Virgílio, Juninho e Carla brincavam, Gabriel corria atrás de Kito, que sempre aparecia na casa da árvore, junto, é claro, com Gabriel.

Bem, quem era o Kito? Era “o periquito”; esperto, falador e malandro, ganhava a todos “no bico”, e lá os amigos brincavam na mais pura alegria.

Quando chegou a hora de cada um voltar para casa, Carla levou Juninho para a casa dele, antes desta voltar para à sua.

Chico Tripa nem sabia que Carla tinha ido brincar no quintal quando chegou em casa, apenas percebeu na hora do jantar, quando viu que Carla não estava sentada à mesa. Foi ficando vermelho, a ponto de explodir.

-Maricota, cadê a Carla? – Falou para a esposa.

-Chico, eu deixei a nossa filha ir brincar com os meninos. Afinal, existe algo de errado em brincar?

Chico Tripa andava de um lado para o outro, vermelho como um tomate, e repetia sem parar:

-Deixa comigo, eu sei exatamente o que fazer.

Quando Carla chegou a casa, Chico Tripa disse:

-Carla, vou proibir você de andar por aí com esses seus amigos.

-Mas pai…

-Nem mais nem menos.

No dia seguinte, Chico Tripa tomou uma decisão. Deu ordens para investigarem os “vigias de passarinhos”.

Carla foi ficando com uma tristeza de dar dó., chorava tanto que o quarto dela estava alagando. Todos os dias a mãe levava um balde para colocar as lágrimas da filha. Os amigos tentavam dar uma força, mas Chico Tripa continuava com a mesma ideia.

Os dias se passavam. Até mesmo Chico Tripa ficou sem saber o que fazer. Comprava brinquedos, e nada… Ia com Carla para o clube Necas de pitibiriba, mas Carla não parava de chorar. Um dia, quando todos já estavam quase desesperançados, a esperança ressurgiu, Kito viu uma cena memorável: Seguiu um macaco guariba carregando uma trouxa lotada de milho, o macaco era Pipo, o viciado comedor de bananas e de milho.

Gabriel soube da história, que se espalhou rapidamente pela cidade e contou para Chico Tripa, que mandou prender Pipo, este saiu nas manchetes de todos os jornais.

Chico Tripa mais uma vez ficou vermelho… Agora a emoção era diferente! Ele não a proibiu mais de ir brincar com amigos, principalmente com Gabriel, com Juninho… E, claro, com o espantalho Virgílio!

Finalmente, a paz voltou a reinar em Paraíso das Flores, principalmente na casa de Carla que parou de chorar. Todos comemoraram, houve festa em Paraíso das Flores., a festa do milho, tinha pamonha e canjica, milho assado e milho cozido… Delícias doces e salgadas, maçã do amor e pipoca, hambúrguer, cachorro quente, batata frita… Humm, que delícia!

Carla dizia, sorrindo:

-Papai, mamãe, eu estou tão feliz!

D. Maricota disse em seguida:

-Filha, eu também estou muito feliz…

O Delegado Chico Tripa sorridente afirmou:

Filha, estou feliz por você e pelos seus amigos… De verdade!

Paraíso das Flores ficou famosa por seus quitutes. Aconteciam festivais de milho, banana, jabuticaba. Uma cidade agradável e aconchegante, como um abraço de mãe, como o mais belo e profundo sentimento de amizade, alegria e amor.

Pensem comigo, existe coisa mais bonita do que ser e ter um amigo?

FIM

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2 comentários sobre “Eis o texto- Virgilio, o espantalho

  1. Interessante que muitos afirmar gostarem de ler, confesso que também gosto muito, mas ultimamente tenho dado mais valor não a leitura e sim em ouvir os contos lidos e relatados com a interpretação alheia. Muitos já havia lido a tempos e formado meu conceito que muitas vezes é diferente do autor e agora essa nova experiencia em ver em outras leituras interpretações também diferenciadas das que tive o que prova que nossos sentimentos e estados de interpretações são variáveis. Mas tudo válido, já houve obras que as li e apenas anos mais tarde é que consegui chegar as entrelinhas que o autor havia pretendido.
    Toda leitura é uma conto, uma fantasia, uma verdade oculta, uma descrição da vida ou visão de uma janela, parece fácil mas o escrever e o interpretar é algo velado entre a leitura da obra e o sentimento que ela aflora ao leitor.
    Como bem descreveu logo ao início existe essa magia, essa essência de como se desenvolveu o conto, e como ele pode ser trabalhado atingindo os diversos sentimentos humanos.
    Vou ficar torcendo para que torne-se peça teatral assim junta-se nessa arte da criação da escrita a caracterização humanizada do artista. Sucesso! 😉

    Curtido por 1 pessoa

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